quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

História do Brasil Colonial - parte 1

Nesse vídeo-aula conto um pouco sobre o "Descobrimento do Brasil", ou, mais corretamente falando: colonização portuguesa. Confiram abaixo:


Espero que tenham gostado do resumo do vídeo e acompanhem abaixo alguns detalhes por escrito:


Neste contexto de entendermos a História do Brasil Colônia é importante desconstruirmos o termo “descobrimento”, muitas vezes utilizado nas aulas de História por aí e propagado pela grande mídia. O Brasil como nação que entendemos nos dias de hoje não foi “descoberto” e sim colonizado (ou invadido) por portugueses; já haviam habitantes em nossas terras com sua cultura e política enraizada, assim, o termo descobrimento carrega consigo um tom eurocêntrico e preconceituoso: devemos evitar.

Mas primeiramente vamos entender um pouco da história de Portugal: quais motivos levaram Portugal às grandes navegações?

  • Desenvolvimento da burguesia e da indústria Náutica;
  • Boa localização geográfica;
  • O espírito Aventureiro português;
  • A vontade de evangelizar por parte da igreja católica
  • A aparecimento da monarquia absolutista, marcante no antigo regime
  • O mercantilismo e busca por novas riquezas

Portugal, desde o século XI, quando foi governado pela dinastia dos Borgonha, já apresentava uma estrutura política relativamente centralizada, comparado ao resto da Europa (que ainda era feudal). Isto ficou bem explícito na transição da Idade Média para Idade Moderna, cujo aspecto principal é a concentração de poder nas mãos de um monarca

A carta de Pero Vaz de Caminha, neste contexto, é considerada o primeiro documento oficial do Brasil: nela foi exposto o ocorrido (a chegada de Pedro Álvares Cabral à costa brasileira) mas também os hábitos indígenas e a riqueza da nossa flora e fauna. Essa riqueza de detalhes espantou os Europeus com seus hábitos tão distintos dos brasileiros, mas também atraiu muitos deles.

História do Brasil Colonia - Descobrimento do BrasilExiste uma problemática a respeito do primeiro contato de Cabral com o Brasil. Questiona-se se este contato foi intencional ou não, mas a academia indica que não, que foi algo casual, eis que supostamente ele estava em busca da Costa Indiana. A princípio em Portugal não tinha tanto interesse no Brasil pois estava de olho no comércio de especiarias com o Oriente mas o tempo mostrou que esta Terra era fértil e podia gerar lucro para a coroa Lusitana.

Os europeus, mesmo com medos e receios, lançaram-se as expedições e Portugal foi pioneiro neste sentido. Um dos fatores que impulsionaram o pioneirismo português foi a busca por novos mercados pela burguesia Lusitana no cenário Mercantil da época. Em 1532 Martim Afonso de Souza organizou a Expedição para reconhecimento da Costa Litorânea do território brasileiro e ocupou-a para desenvolver experiências agrícolas.

Custou-se a "organizarem" a História do Brasil como vimos hoje em dia: vários intelectuais tentaram definir um meio oficial dessa história mas somente em 1937 Roberto Simonsen elaborou um modelo explicativo para demonstrar a economia colonial brasileira baseado no conceito de ciclo econômico. O autor defendia que os principais ciclos foram o pau-brasil (com mão de obra indígena escravizada), o açúcar (mão de obra escrava africana e foco na propriedade rural) e a mineração (que também era escravista). Por isso é tão comum ouvirmos esses assuntos nas aulas de História.

Ainda falando da Economia, a colonização no Brasil obedecia a uma regra de exclusividade para com a Metrópole (Portugal). Caio Prado Jr. em sua obra sobre a economia do Brasil Colônia afirma que havia falta de autonomia do Brasil frente à sua metrópole e que não existia um comércio interno. Já João Fragoso e Manolo Florentino destacam a importância do tráfico negreiro e da mão-de-obra escrava pois essa era desviada para outras funções quando a exportação do açúcar baixava;

O cargo de Governador Geral foi uma tentativa de centralização de poder da Coroa Portuguesa no Brasil para superar o fracasso das Capitanias Hereditárias. O cargo foi criado para controlar as Capitanias e estimular o processo de povoamento no Brasil. Os Governadores Gerais trouxeram os Jesuítas consigo para catequizar e influenciar os nativos, moldando-os aos comportamentos europeus.

Ainda que as Capitanias recebessem poderes, os Governadores estavam submetidos ao controle de Portugal. A Carta de Doação e o Foral eram os documentos que atestavam a posse de uma Capitania Hereditária.


Esta foi a primeira parte da postagem sobre "História do Brasil Colonial", assim que puder, farei a segunda parte.

PARA MAIS ATUALIZAÇÕES, SIGAM ↓

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Historiografia Brasileira - parte 2

Na postagem anterior sobre Historiografia Brasileira postei um resumo sobre a produção Historiográfica no Brasil Colônia e nos primeiros anos do Império. Agora vamos ler um pouco sobre o início do século XIX e seus principais nomes e acontecimentos.

Um nome muito presente neste contexto é Gilberto Freyre, que foi sociólogo nascido em Pernambuco e educado nos EUA. Ele opôs-se ao racismo em suas obras, considerava o mestiço um "degenerado" (no sentido positivo da palavra) e defendia a tese de que a mistura de raças imprimia a força e a riqueza cultural ao povo brasileiro. Essa visão positiva da miscigenação rendeu à Freyre críticas negativas acusando-o de "romantizar"(ou suavizar) os violentos conflitos entre portugueses e brasileiros. A formação do antropólogo incorporou em seu texto aspectos repletos de universo afetivo, da convivência e das relações sentimentais. Foi influenciado nesse sentido por seu mentor Franz Boas, com quem teve contato em sua morada no exterior;

Livro Casa Grande e Senzala, Gilberto FreyreFreyre aponta em sua obra o contato com a moral cristã realizada pelos jesuítas e como isto se tornou um dos maiores elementos destruidores da cultura nativa; Freyre também demonstra em suas obras o uso da interdisciplinariedade na construção historiográfica, ampliação do uso de documentos e fontes para coisas não tão comuns (como jornais e receitas culinárias), etc;

Outro nome importante na Historiografia Brasileira é o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Nascido em São Paulo, sociólogo, formado em Direito e jornalista, também lecionou em universidades nacionais e internacionais. 

Foi um dos fundadores da Esquerda Democrática em 1946, do qual se originou o Partido Socialista e o Partido dos Trabalhadores; todo seu trabalho é fundamentado na teoria social Weberiana. Enquanto Weber pensa na "Ética do Trabalho presente nas religiões Protestantes" como algo determinante para a constituição dos EUA e seu sucesso diante do sistema capitalista, Sérgio Buarque de Holanda fala da ética do ócio, da influência da Antiguidade Clássica na vida do povo Ibérico e fez sérias críticas ao colonizador português, sua preguiça e desleixo em muitos momentos. Sérgio Buarque atribuía um suposto fracasso no sistema governamental brasileiro da época por conta do projeto mal elaborado português.

Raízes do Brasil, sua mais importante obra, é um marco nos estudos históricos e sociológicos brasileiros por indicar novos métodos analíticos e maneiras de compreender a evolução social no decorrer de sua história, se afastando das teorias de diferenciação entre raças; sua obra se aproxima de Ranque no que tange à busca pelo espírito do brasileiro e pela identidade nacional; também se aproxima de Weber pela tipologia dos tipos sociais que nos auxiliam a compreender a cultura e seu funcionamento cotidiano;

Diferentemente de Freyre, Sérgio Buarque quer superar a herança portuguesa, pensa que o brasileiro deva encarar em sua identidade o que há de pior para tentar melhorar e construir uma identidade nacional; criticou o Estado brasileiro no qual predomina o modelo de família patriarcal, sem a constituição de uma organização burocrática eficiente. O traço que define esse "neoportuguês" serial a noção de "homem cordial" oriundo de Portugal. Sérgio Buarque critica o paternalismo como sinônimo de "apadrinhamento", "jeitinho brasileiro".

Caio Prado Júnior foi o intelectual que mais refletiu sobre o movimento operário marxista; questionou os motivos de não ter existido no Brasil uma revolução comunista, ou até mesmo uma revolução burguesa; criticava o imperialismo internacional, foi um pensador metódico e acadêmico.

Ele construiu uma história econômica com inspiração marxista questionando quais os conceitos apropriados deveriam ser criados para analisar o processo histórico brasileiro; também problematizou a "demora" da passagem do tempo pela ausência de rupturas significativas com o passado; definiu na história do Brasil 3 fases, começando pelo povoamento; Caio Prado lançou críticas ao comportamento moral dos portugueses, que usavam das nativas e afro-brasileiras para sexo casual e defende que no Brasil não houve uma transição do feudalismo para o capitalismo, eis que a situação colonial já estava ligada à demanda mercantil;

A Influência dos Annales na Historiografia Brasileira: A Escola des Annales desenvolveu e amplificou as possibilidades oferecidas para o campo das pesquisas históricas ao romper com a tradicional compartimentação das Ciências Sociais privilegiando os métodos pluridisciplinares, sem no entanto cair em aventuras puramente transdisciplinares. A história propõe que os documentos são vestígios nas mãos do historiador, e que de fato, pode-se perceber a existência de inúmeras histórias e inúmeras temporalidades ao analisar o mesmo presente cronológico.

Antes da influência da Escola dos Annales, a história no Brasil era contada com finalidade de justificar ações do Estado. Com o surgimento de novos atores sociais no início do século XX foi necessária a busca por uma nova maneira de fazer História para captação da realidade da sociedade brasileira.

Ao longo das décadas a escola dos Annales faz com que as fontes e os documentos históricos não importem mais somente pelo que dizem, mas também por aquilo que não dizem. A produção historiográfica brasileira foi profundamente marcada, a partir dos anos 1960, por uma espécie de dialética, de interação e de oposição entre as vertentes da tradição e as vertentes da inovação. Essa dialética está presente nas tensões próprias da escrita da historiografia brasileira. Do lado da vertente da renovação estavam as contribuições da Escola dos Annales e a influência da perspectiva teórica marxista, que se combinaram, se acoplaram e ganharam espaço na produção historiográfica nacional. A vertente tradicional, porém continua sendo muito influente ainda, pois estava solidamente implantada nos terrenos institucionais e acadêmicos.

A chamada Nova História, que popularizou-se nos anos 1960 e 70, tinha como fundamento duas inspirações básicas, a escola dos Annales e o Marxismo. Daí a partir da década de 80, as articulações da historiografia brasileira vão se tornando mais complexas por meio de elaborações conceituais advindas dessas três tendências ou perspectivas historiográficas.

A produção historiográfica brasileira foi profundamente marcada, a partir dos anos 1960, por uma dialética, de interação e de oposição entre as vertentes da tradição e as vertentes da inovação. Essa dialética está presente nas tensões próprias da escrita da historiografia brasileira. A historiografia contemporânea sedimentou a distinção entre o fazer do historiador e o produto de tal fazer: o discurso histórico.

O materialismo histórico foi a metodologia básica que se destaca nas análises marxistas; esse conceito possibilitou a entrada da história no campo da ciência de forma concreta. O conceito de história oferecido pela perspectiva marxista propõe uma teoria geral de funcionamento das sociedades em seus desdobramentos históricos. Esse método de análise marxista do processo histórico tem como dinâmica a dialética.

A produção historiográfica durante o século XX conheceu uma grande efervescência teórica e metodológica, que suscitou discussão sobre a narrativa histórica, suas estratégias discursivas e a legitimidade científica da produção do conhecimento histórico. A abertura das perspectivas teóricas e temáticas ligadas ao campo da História Social e da Nova História Cultural acabou por estimular reflexões e trabalhos historiográficos em todo o mundo e também no Brasil.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Por que algumas pessoas não gostam de Estudar o Antigo Egito?

Eu sigo uma página de História no Facebook e nela são compartilhados memes com intuito educativo mas também humorístico sobre História, é claro.

A História no Paint é uma sátira aos profissionais ilustradores (no bom sentido) ao usar de montagens simples (feitas no paint, propositalmente sem capricho) pra explicar conteúdo histórico. Tornou-se um canal de comunicação de História (e outras ciências humanas) que deu certo ao se utilizar de linguagem jovem e atual, desafio que muitos educadores encontram ao longo da sua profissão. É de suma importância conhecer a linguagem do jovem e saber se colocar no lugar dele ao transmitir o conhecimento, todo professor sabe disto mas nem sempre aplicam à prática.

Por que estou dizendo isto? Esta mesma página satiriza o fato das pessoas não se interessarem tanto pelas histórias (e estórias) do Antigo Egito. Mas por que será? Até alguns seguidores se questionam...

As origens de nossa civilização puderam ser encontradas no Oriente médio, Grécia Antiga (região que não é exatamente onde encontra-se localizada a atual Grécia mas sim a costa do mar mediterrâneo) e Nordeste Africano, local onde está localizado o Egito. Toda escola que se preze abriga este conteúdo em suas aulas de História, o que incorre no perigo de tornar-se algo chato pra estudar. Até os mais negligentes alunos já ouviram falar em Rio Nilo, Mesopotâmia ou Atenas... Desse modo o conteúdo programático sobre os hábitos, cultura e política do Antigo Egito tornaram-se massantes conteúdos de decoreba, diferentemente do que ocorre nas universidades.

Até os mais negligentes alunos conseguem identificar nesta imagem o elemento egípcio

Quase todos os Universitários de História que conheço sonham em conhecer o Egito e existe até uma especialização acadêmica para os amantes dessa cultura, a Egiptologia. A história do Antigo Egito é fascinante pra quem se aprofunda e estuda por vontade própria, mas infelizmente em nossas escolas temos jovens super inexperientes academicamente (não conhecem melhores métodos de estudos), com outras "prioridades" (o "fogo" no cool habitual da idade), que são obrigados a aprender algo que não se interessam. A História do Egito Antigo é maravilhosa, até hoje vemos sua influência em nossos hábitos e na cultura ocidental como um todo.

O Egito foi uma região parcialmente isolada do resto da Europa, Ásia e África, desso modo, desenvolveu-se uma cultura única, sem grandes interferências externas, o que marcou o período e o imaginário das pessoas.

Entendam o seguinte: para um apaixonado por uma cultura, local, civilização, sempre haverão coisas interessantes pra se aprender. Egito Antigo não é minha disciplina favorita mas ainda sim adorei conhecer um pouco mais nas aulas de Antiguidade Oriental. Sempre haverá um novo aspecto ou estudo que te surpreenderá até nas disciplinas que você não curte, História é o melhor curso do mundo ⌛💗 Amo este curso e vou defendê-lo

domingo, 10 de dezembro de 2017

Livro: Dom Casmurro, Machado de Assis

Quando a gente é adolescente é bem comum o colégio nos impôr a leitura de alguns clássicos nacionais, como Iracema, Capitães da Areia, Senhora e o famosíssimo "Dom Casmurro", de Machado de Assis.

Aí você se pergunta: O jovem de 15, 16 anos, só pensa em que? Provavelmente não é na Academia Brasileira de Letras. Esta imposição é muito ruim porque tudo que é forçado é péssimo, contudo, ainda acho importante a cobrança destes títulos para a valorização de uma cultura nacional. Talvez a abordagem pudesse ser diferente pra solucionar a falta de interesse dos jovens...

Um outro problema é a maturidade emocional destes adolescentes. Hoje, aos trinta, eu leio Jorge Amado e acho incrível, com Machado de Assis a mesma coisa, mas a vida e as experiências que já passei me fazem sentir uma proximidade maior com essas estórias. Ainda que eu não tenha vivido a realidade destes contos, quanto mais velho mais chances de empatia e sensibilidade diante destes títulos.

Resumo de Dom Casmurro

Outro dia analisando uma postagem nas internê eu vi que "Dom Casmurro" é considerado, mundialmente, o livro mais importante da literatura brasileira, figura como um dos mais vendidos de todos os tempos e eu não entendia o porquê de tanto sucesso, até ler. Tenho sorte por trabalhar em escola e ter uma biblioteca cheia de clássicos disponíveis, foi lá que usei do meu tempo de almoço pra consumir essa obra e valeu muito a pena. Em apenas uma semana eu devorei este livro que conta uma estória fictícia e atemporal.

A Estória contada pelo personagem principal, Bentinho, mostra sua trajetória de vida: um menino que ao nascer foi prometido pela mãe à ser padre mas durante a adolescência se apaixonou pela sua melhor amiga, Capitolina, mais conhecida como Capitu.

O drama mostra o ponto de vista de Bentinho, a dificuldade que foi contar a mãe sua mudança de planos, como cada membro de sua família está ligado à trama e até os personagens secundários fazem diferença na estória deste livro. Bentinho é um homem um pouco tedioso e dramático e sente como se o mundo girasse a seu redor, mas não demonstra maldade. Capitu é uma moça de iniciativa e fervorosa, e esse jeito de ser conquista seu amigo.

O livro mostra um pouco do cenário histórico do início do séc XIX, onde a herança da escravidão negra ainda era muito presente e o Rio de Janeiro é palco e sinônimo de tradição religiosa mas também modernidade.

Spoiler: 

Bentinho consegue, ao longo da trama, contar a sua mãe sobre os planos de não seguir a carreira religiosa, mesmo assim vai para o seminário. Lá ele conhece seu futuro melhor amigo, Escobar, que assim como ele também não deseja ser padre. Escobar torna-se comerciante e Bentinho advogado. O livro encerra-se com Bentinho já casado com Capitu desconfiando que o fruto de sua união pode ser filho do seu melhor amigo. Babado hein... rs

Existe uma discussão sobre o fato de Capitu ter traído seu esposo Bentinho ou não. Isto nós nunca iremos saber, Machado de Assis quis isto mesmo, provocar o leitor, deixar a dúvida no ar, e nos contemplar com uma estória clássica atemporal, lida no mundo inteiro, traduzida em várias edições 🙂

Se um dia você sentir aquela dúvida, ler ou não ler, leia, porque é escrita de um jeito muito gostoso, fácil e envolvente. O livro te prende a atenção e vale a pena ser apreciado. Talvez seja chato ler nas primeiras páginas por causa da linguagem um pouco distante, mas logo você consegue compreender a trama. Dom Casmurro é um livro maravilhoso 💗

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